Campeonato de cortes para advogados: o que o Provimento 205 da OAB deixa e o que ele veda
Advogado pode distribuir conteúdo jurídico em vídeo curto, e um campeonato de cortes multiplica esse alcance. Mas o Provimento 205/2021 da OAB veda captação de clientela, promessa de resultado e mercantilização, e o corte que mais roda é justamente o que esbarra nisso. Montei o campeonato do jeito que eu faria para um escritório, artigo por artigo.

Campeonato de cortes para advogados: o que o Provimento 205 da OAB deixa e o que ele veda
Advogado pode distribuir conteúdo jurídico em vídeo curto: o Provimento 205/2021 da OAB permite o marketing de conteúdos jurídicos, inclusive com anúncio pago, desde que sem mercantilização, sem captação de clientela e sem emprego excessivo de recursos financeiros (art. 4º). Um campeonato de cortes cabe aí se cada corte for informativo, sem caso concreto, sem resultado, sem promessa e sem oferta de serviço. Na Cut.Pro, criar é grátis, o prêmio sai em créditos (mínimo de 500) ou em PIX (a partir de R$ 5.000, mais taxa de plataforma de 20%), e para escritório eu iria de campeonato só para convidados, revisão rigorosa e o menor prêmio que funcione.
Vou pelo formulário na ordem e digo o que eu escolheria, com o artigo do provimento ao lado de cada decisão. Dois avisos: eu trabalho na Cut.Pro, e não sou advogado. Este post não é parecer. Não encontrei manifestação da OAB sobre campeonato de cortes especificamente; antes de abrir o seu, leve o regulamento e o briefing ao Tribunal de Ética ou à Comissão de Fiscalização da sua seccional.
O que o Provimento 205/2021 diz, em uma tabela
O provimento é de julho de 2021 e substituiu o antigo Provimento 94/2000. Os pontos que batem em corte:
| Artigo | O que diz | O que significa para o corte |
|---|---|---|
| Art. 2º, II | Marketing de conteúdos jurídicos é a criação e divulgação de conteúdo "voltada para informar o público" | O corte informativo é exatamente isso |
| Art. 4º, caput | Admite publicidade ativa ou passiva e anúncios pagos, sem mercantilização, captação de clientela ou "emprego excessivo de recursos financeiros" | O prêmio do campeonato não pode ser desproporcional |
| Art. 4º, § 2º | Em vídeo de atuação profissional, vedada menção a decisões e "resultados de qualquer natureza" | Nada de "ganhamos essa" |
| Art. 4º, § 5º | Vedado uso de meios que influam "de forma fraudulenta" no impulsionamento ou alcance | View comprada derruba o corte e o advogado |
| Art. 5º, § 3º | Permite vídeos ao vivo ou gravados nas redes, vedada a "utilização de casos concretos ou apresentação de resultados" | Caso de cliente fica fora, mesmo sem nome |
| Art. 6º, parágrafo único | Veda em qualquer publicidade a ostentação de bens e a "promessa de resultados" | Carro, viagem e "a gente resolve" ficam fora |
| Art. 3º, I e IV | Veda referência a honorários, gratuidade ou desconto, e expressões persuasivas ou de autoengrandecimento | "Consulta grátis" e "o melhor advogado de..." ficam fora |
| Anexo Único | Impulsionamento é permitido "desde que não se trate de publicidade contendo oferta de serviços jurídicos" | Corte pode circular; oferta de serviço não |
E o art. 1º, § 1º, fecha a questão de responsabilidade: as informações veiculadas "são de exclusiva responsabilidade" do advogado identificado. Corte publicado no perfil do clipador, com o seu rosto e a sua marcação, eu trataria como publicação sua.
Corte informativo ou mercantilização?
Essa é a linha que o campeonato inteiro precisa respeitar. A definição de captação de clientela do provimento (art. 2º, VIII) é o uso de marketing que, "de forma ativa, independentemente do resultado obtido", se destina a angariar clientes "pela indução à contratação dos serviços ou estímulo do litígio". O Anexo Único completa: criação de conteúdo deve ter "caráter técnico informativo, sem divulgação de resultados concretos obtidos, clientes, valores ou gratuidade".
Na prática do corte:
| Corte informativo (eu aprovaria) | Mercantilização (eu recusaria) |
|---|---|
| "Quanto tempo você tem para reclamar de um produto com defeito" | "Comprou com defeito? Me chama que eu resolvo" |
| Explicação de uma mudança na lei | "Já recuperei R$ 200 mil para um cliente nesse caso" |
| Erro comum em contrato de aluguel | "Consulta gratuita, link na bio" |
| Mito jurídico desmontado | "Você tem direito a indenização, processe já" |
| Opinião técnica sobre um julgamento público | Corte no escritório mostrando carro, viagem ou relógio |
O corte da direita costuma render mais view. É por isso que o briefing e a revisão importam mais aqui do que em qualquer outro nicho.
Antes de abrir o formulário: você tem material?
Advogado que produz conteúdo costuma ter lives, vídeos no YouTube, podcast jurídico, aulas e palestras. A regra de sempre vale: algumas horas de material novo por semana de campeonato.
| Material | Entra no acervo? | Por quê |
|---|---|---|
| Vídeos e lives informativos no YouTube | Sim | É marketing de conteúdo puro |
| Podcast jurídico | Sim | Mesma lógica |
| Aula ou palestra | Sim, se a gravação é sua | Magistério é a única atividade que o art. 8º deixa vincular à advocacia; palestra gravada por evento precisa de autorização de quem gravou |
| Gravação de audiência ou sustentação oral | Eu deixaria fora | O provimento permite, mas veda menção a resultado, e o clipador vai cortar justamente o desfecho |
| Atendimento ou reunião com cliente | Nunca | Sigilo |
Etapa 1: o campeonato
- Visibilidade: só convidados, com entrada por e-mail ou link, no primeiro campeonato. Você responde pelo que for publicado (art. 1º, § 1º), então eu começaria com clipadores que leram o briefing, não com a vitrine inteira.
- Banner e logo: o art. 5º, § 2º, permite logomarca e fotos do escritório, mas veda "logomarca e símbolos oficiais" da OAB. Nada de brasão da Ordem no banner nem na marca d'água.
- Responsável: o advogado (CPF) ou a sociedade (CNPJ). Se quem monta é a equipe de marketing, use "Estou montando para outra pessoa" e o sócio aceita o regulamento e paga.
- Descrição: escreva o objetivo como conteúdo informativo. Evite "divulgar o escritório" na descrição pública.
Etapa 2: as regras
Redes e marcação
TikTok, Instagram e Facebook pontuam pela conta conectada do participante; YouTube e Kwai, pelo link público. X e Pinterest não pontuam hoje.
A #cutpro é obrigatória em todo campeonato, e você acrescenta no máximo 2 hashtags próprias por rede, além do @. Uma delas tem que ser só deste campeonato. Evite hashtag que soe como oferta (#AdvogadoTrabalhista24h); prefira o nome do seu canal de conteúdo. Avise no briefing que quem esquecer a marcação no TikTok, Instagram ou Facebook corrige editando a descrição, sem repostar, e que tirar a marcação depois tira o vídeo do campeonato.
Exigências do vídeo
| Exigência | Para advogado | Por quê |
|---|---|---|
| Texto obrigatório na legenda | Sim | "Conteúdo informativo. Não substitui a consulta a um advogado." deixa o caráter informativo explícito em todo corte |
| Pessoa que precisa aparecer | Sim, você (com foto do rosto) | Garante que o corte é do seu acervo e não de outro conteúdo jurídico |
| Logo ou marca d'água | Opcional | Permitida pelo art. 5º, § 2º, se for a sua, nunca a da OAB; a plataforma procura a logo e avisa na revisão |
| Duração mínima | Sim, curta | Corte de 8 segundos perde a ressalva e vira frase de efeito |
| Link na bio | Não | Contato do escritório no perfil de dezenas de terceiros chega perto de captação |
| Texto na tela | Opcional | Nome e título, verdadeiros, são permitidos (art. 4º, § 1º) |
O link na bio é a decisão que eu tomaria com mais cuidado. O art. 4º, § 3º, permite divulgar contatos e redes sociais em caráter informativo. Mas exigir que dezenas de pessoas ponham o WhatsApp do escritório no perfil delas, como condição para ganhar prêmio, é difícil de enquadrar como "informativo". Eu deixaria desligado.
Briefing
Uma página, com a lista de proibidos que sai direto do provimento:
- caso concreto de cliente, mesmo sem nome;
- resultado, decisão ou valor obtido;
- promessa de resultado ("você vai ganhar", "a gente resolve");
- honorários, consulta grátis, desconto;
- chamada para contratar ou para processar alguém;
- superlativo sobre você ("o melhor", "o mais procurado");
- ostentação de bens, mesmo de fundo;
- trecho cortado para parecer polêmico.
O art. 7º estende as regras a conteúdo que, mesmo sem relação com a advocacia, possa "atingir a reputação da classe". Corte de piada sua fora de contexto entra nessa conta.
Etapa 3: os prêmios
O art. 4º veda "emprego excessivo de recursos financeiros" no marketing de conteúdo. Não existe número oficial para "excessivo", então eu não vou inventar um. A minha leitura prática é começar pelo menor prêmio que funcione: créditos (mínimo de 500) ou o mínimo do PIX (R$ 5.000, mais a taxa de 20%), e crescer só com dado.
| Seu objetivo | Modelo | Por quê |
|---|---|---|
| Alcance do conteúdo, orçamento contido | Por mil views com teto por vídeo e por participante | Paga o que foi entregue e o teto limita o gasto por corte |
| Equipe do escritório ou alunos cortando | Ranking com prêmio semanal, critério misto | Disputa entre conhecidos, sem premiar só o corte polêmico |
| Série sobre um tema (mudança de lei, por exemplo) | Por post com limite por pessoa | Volume previsível num período curto |
Eu iria de por mil views, com três ajustes:
- Teto por participante, que é obrigatório em campeonato novo por mil views. Nos campeonatos por mil views já encerrados na Cut.Pro, o participante do topo levou de cerca de 23% a 87% do prêmio, com mediana perto de 45%.
- Teto por vídeo baixo. Em conteúdo jurídico, o corte que explode costuma ser o mais próximo da linha.
- Mínimo de views baixo, para que o corte técnico e correto também renda.
O § 5º do art. 4º veda alcance obtido "de forma fraudulenta". Isso conversa com a integridade do campeonato: a Cut.Pro analisa sinais de views artificiais e, quando o sinal é forte em vídeo que rende dinheiro, pede comprovação de alcance e retém o saldo daquele campeonato até a resposta. O que levanta esse tipo de suspeita está explicado em views falsas em campeonato de cortes. Para escritório, é uma proteção a mais, não um detalhe.
Etapa 4: revisão, que aqui é a parte principal
A aprovação do campeonato é manual, em até 2 dias úteis. Depois que abrir:
- Assista a cada corte inteiro, com a legenda. O problema costuma estar no texto que o clipador escreveu, não na sua fala.
- Recuse com motivo. "Violação das regras" para captação, resultado ou promessa; "não relacionado" para corte fora do acervo. O participante pode contestar uma recusa até o fim do campeonato.
- Lembre o limite da recusa. Ela tira o vídeo do campeonato, não da rede de quem postou. Se um corte com oferta de serviço saiu com o seu rosto, peça ao clipador para apagar.
- Revise todo dia. O participante vê há quanto tempo o vídeo está na fila.
Denúncias entre participantes são decididas pela Cut.Pro, e o nome de quem denunciou não aparece.
A licença de republicação
Ao entrar, o participante aceita o regulamento gerado pela plataforma, que autoriza o organizador a republicar os cortes nos canais e perfis dele, sem transferir a propriedade do vídeo. Antes de republicar um corte no perfil do escritório, passe-o pelo mesmo filtro: na sua conta, ele é publicidade profissional direta.
Por onde começar
Leve o briefing à sua seccional, crie um campeonato só para convidados, cadastre os seus vídeos informativos como acervo, exija você no vídeo e a frase "conteúdo informativo" na legenda, deixe o link na bio desligado e vá de por mil views com o menor prêmio que funcione e teto por vídeo. Revise cada corte inteiro.
O formulário campo a campo está em como criar um campeonato de cortes, e o que entra no regulamento, em modelo de regulamento de campeonato de cortes, que eu também escrevi.
Fontes: Provimento 205/2021 do Conselho Federal da OAB · OAB SP, aprovado o novo provimento sobre publicidade na advocacia · Campeonatos abertos na Cut.Pro


