Campeonato de cortes na eleição: o que o TSE proibiu em 2026
A Resolução 23.755 do TSE, de março de 2026, proíbe pagar gente para publicar conteúdo político-eleitoral por competição, ranking ou prêmio. É exatamente o formato do campeonato de cortes. O que a regra diz, de onde ela veio, quem já está sendo acionado e o que continua permitido para quem corta.

Campeonato de cortes na eleição: o que o TSE proibiu em 2026
Pagar clipador para publicar corte político na eleição de 2026 é proibido. A Resolução 23.755 do TSE, de 2 de março de 2026, veda a "contratação, direta ou indireta, por mecanismos de competição, ranqueamento ou premiação econômica" de gente para espalhar conteúdo político-eleitoral nos próprios perfis. O primeiro turno é em 4 de outubro e o segundo em 25 de outubro, e até lá esse é o assunto mais sério do mercado de cortes.
Antes de seguir, o conflito de interesse na mesa: eu trabalho na Cut.Pro, que opera campeonatos de cortes. Justamente por isso acho que quem vive desse formato precisa conhecer essa regra melhor do que ninguém.
O que exatamente a regra proíbe?
O texto mira um mecanismo, não uma plataforma. Segundo o resumo do Desinformante, o TSE proibiu "qualquer tipo de pagamento ou vantagem econômica" para que pessoas ou empresas publiquem propaganda eleitoral nos próprios perfis, e citou nominalmente as "redes organizadas de replicação de conteúdo" e as "competições para produção de cortes de vídeos políticos". O Senado resume a mesma coisa em uma linha: contratar pessoas ou organizações para postar conteúdo político-eleitoral mediante remuneração está proibido.
Traduzindo para a linguagem de quem clipa, cabem na proibição:
- campeonato com pódio para o corte de candidato com mais views;
- pagamento por mil views em corte de campanha;
- "desafio" com prêmio para quem mais postar trecho de comício, sabatina ou entrevista de candidato;
- qualquer benefício em troca da publicação, inclusive vantagem que não seja dinheiro vivo.
A resolução também diz quem pode pagar para impulsionar: só candidato, partido, federação e coligação, e sempre com identificação clara, de acordo com o Jornal de Brasília. Influenciador "não pode ser pago para publicar propaganda eleitoral nem receber vantagens econômicas para promover candidatos". O clipador pago por campanha está, na prática, na mesma posição do influenciador pago.
De onde veio isso?
De 2024. Na eleição para prefeito de São Paulo, a campanha de Pablo Marçal pagou criadores por view de corte e premiou os mais assistidos. Ele foi condenado em primeira instância à inelegibilidade por oito anos, e em 5 de agosto de 2026 o TRE-SP manteve a inelegibilidade até 2032 por unanimidade, entendendo que a "publicação massiva de vídeos curtos" com pagamento a criadores por visualização configurou uso indevido dos meios de comunicação. Ainda cabe recurso ao TSE.
Esse caso é o motivo de a palavra "campeonato" aparecer em reportagem de política este ano. Um formato que nasceu para distribuir podcast e live virou, em uma eleição, máquina de simular apoio orgânico. A resolução de 2026 é a resposta direta a isso.
Já tem gente sendo acionada em 2026?
Tem, e os casos mostram o formato funcionando exatamente como o mercado comercial funciona.
A Revista Fórum relatou em 10 de junho um campeonato de cortes com conteúdo do deputado Caporezzo, rodando numa plataforma de campeonatos: R$ 0,50 por mil views, teto de R$ 500 por publicação e R$ 2.500 para o corte mais visto. Passou de 8 milhões de visualizações desde o fim de maio.
Em 20 de agosto, a CartaCapital noticiou que a bancada feminista do PSOL acionou o TSE contra Renan Santos por abuso de poder econômico e uso indevido dos meios, alegando uma estrutura que fornece material, acompanha desempenho e mantém ranking de clipadores. São alegações; o processo não tem decisão até aqui.
E o Imirante mostrou em maio partidos e movimentos organizando produção de cortes com ferramentas e cursos próprios. O corte virou infraestrutura de campanha. A regra existe porque o mercado cresceu.
Quem corre risco: o candidato, o organizador ou o clipador?
A punição mais pesada recai sobre quem se beneficia. Inelegibilidade e cassação são sanções para candidato, e as ações que encontrei miram candidato e quem organiza.
Sobre o clipador, sendo honesto: não encontrei nas fontes abertas uma pena específica para quem apenas recebeu por view. Mas três coisas me fariam ficar longe:
- O conteúdo está na sua conta. Quando a Justiça manda remover, é o seu perfil que perde o vídeo, e às vezes a plataforma age sobre a conta inteira.
- Você vira prova. Em ação de abuso de poder, a rede de perfis pagos é o que se investiga. O seu @ aparece na lista.
- O dinheiro é pouco para o risco. R$ 0,50 por mil views, com teto por publicação, é um valor baixo para quem está emprestando a própria conta a um processo eleitoral.
Esse terceiro ponto é o que mais me incomoda no mercado político de cortes: ele paga mal e empresta a reputação de todo mundo que clipa. Já escrevi sobre o lado ruim da campanha de cortes quando o incentivo premia o exagero, e eleição é o caso extremo disso.
O que continua permitido?
Bastante coisa, e é bom deixar claro para ninguém sair apagando o canal por medo.
Apoio espontâneo. O Jornal de Brasília lista como liberados o apoio espontâneo, o compartilhamento orgânico, o uso de hashtags e a participação em mobilizações espontâneas. Se você corta o debate porque quer e não recebe nada por isso, está no território da opinião.
Canal de política sem patrocínio de campanha. Canal de cortes de política que monetiza pela própria plataforma, sem dinheiro de candidato, não é contratação por campanha. Continua sujeito às regras de conteúdo (desinformação, deepfake, rótulo de inteligência artificial), mas não a essa proibição.
Campeonato de cortes que não é eleitoral. Podcast, live de jogo, esporte, marca, igreja: tudo segue normal. A regra fala de conteúdo político-eleitoral.
O que muda o enquadramento é sempre a mesma coisa: vantagem econômica em troca da publicação de conteúdo eleitoral. Tirou o pagamento, tirou o ranking com prêmio, tirou o "bônus" disfarçado, você volta a ser um eleitor com uma conta.
E a inteligência artificial nos cortes?
Outra camada, que vale para qualquer corte político, pago ou não. Todo conteúdo de propaganda eleitoral criado ou alterado por IA precisa de aviso claro, deepfake para prejudicar ou favorecer candidato é proibido e, entre as 72 horas antes e as 24 horas depois de cada turno, não se pode publicar conteúdo sintético novo com imagem ou voz de candidato, mesmo rotulado. A multa vai de R$ 5 mil a R$ 30 mil. Isso afeta diretamente quem corta debate com dublagem, voz clonada ou "remix" feito com IA.
O que fazer se você organiza campeonato
Se você organiza campeonato de cortes em qualquer plataforma, a minha sugestão para as próximas quatro semanas é simples:
- Escreva no regulamento que conteúdo político-eleitoral não é aceito até o fim do segundo turno, em 25 de outubro.
- Revise o material de origem. Podcast que entrevistou candidato em setembro é material eleitoral. Tire esses episódios do campeonato ou espere passar a eleição.
- Não aceite "patrocínio" de campanha para premiar corte, mesmo que o dinheiro venha por um terceiro. A resolução fala em contratação direta ou indireta.
- Desconfie de briefing vago. "Corte os melhores momentos do fulano" em setembro de ano eleitoral, quando o fulano é candidato, é campanha.
Se você está chegando agora nesse formato, o post sobre como funciona um campeonato de cortes explica as modalidades de premiação sem nada disso no meio.
O que fazer se você é clipador
- Recuse campanha que paga por corte de candidato, seja por view, por posição ou por "desafio".
- Desconfie de curso de "renda extra com cortes políticos". Se a renda depende de publicar propaganda eleitoral por dinheiro, a renda depende de uma prática proibida.
- Se você corta política por opinião, corte sem receber e sem ferramenta de IA mexendo em rosto ou voz de candidato, principalmente nas janelas de 72 horas.
- Volte para o campeonato comercial. Campeonato de podcast, de live e de marca continua aberto, e sem processo no meio. O retrato do mercado de streamers pagando clipadores mostra onde está o dinheiro que não dá problema.
Não sou advogado e este texto não substitui um: se você já recebeu por corte político este ano, a conversa certa é com um especialista em direito eleitoral, não com um post de blog.
A minha posição é que a regra está certa. O campeonato de cortes funciona porque é distribuição paga por resultado, e isso é ótimo para podcast, streamer e marca. Numa eleição, a mesma mecânica compra a aparência de apoio espontâneo, e aparência de espontaneidade comprada é exatamente o que o eleitor não consegue distinguir. Quem clipa tem interesse direto em que o formato não fique marcado como ferramenta de campanha. A forma mais simples de proteger o formato é ficar fora disso até 25 de outubro.
Fontes: Revista Fórum, campeonato de cortes de Caporezzo e a Resolução 23.755 · Desinformante, as resoluções do TSE para 2026 · Senado, IA nas eleições · Jornal de Brasília, regras de campanha nas redes · CNN Brasil, TRE-SP mantém inelegibilidade de Marçal · CartaCapital, PSOL aciona o TSE contra Renan Santos · Imirante, cortes nas eleições de 2026 · Migalhas, IA nas campanhas de 2026


